
Assim que saio do elevador, ainda antes de começar a percorrer o corredor, sinto aquele cheiro característico, inconfundível, um cheiro adocicado, que não consigo decifrar do que é. Se for perto da hora do jantar, esse cheiro mistura-se com o da comida, estão a distribuir as sopas. É enjoativo. Dentro do quarto o calor é insuportável, sufocante.
O Hospital Amadora Sintra passou a ser a minha segunda casa. Aos fins de semana, passo lá toda a tarde. O grande átrio da entrada é a sala de estar da nossa família. Encontramo-nos lá todos, filhos e filhas, tios e tias, primos e primas e outros parentes e amigos, alguns dos quais eu já nem me lembrava. Os dias passam como que em câmara lenta, tão lentamente que assusta.
Ao 11º dia, estamos todos mais animados. No final do primeiro dia de internamento da minha Avó, ninguém acreditou que ela iria resistir até ao dia seguinte. Estava irreconhecível, pálida e mais magra do que nunca, imóvel e silenciosa por entre os tubos do soro.
A minha Avó fará 96 anos de idade para a semana, mas apesar da seu já longo período nesta vida e do seu estado de saúde cada vez mais débil, ninguém se preparou para o seu desaparecimento. A ideia de que aqueles podiam ser os seus últimos dias, devastou-nos brutalmente a todos.
Mas ela resistiu. Contra todas as possibilidades reais. Amanhã, no 12º dia, voltará para casa, para o seu pequeno mundo e eu voltarei a respirar de alívio e a poder sorrir um pouco.
A minha Avó ensinou-me uma lição preciosa, uma em cada dia da minha existência. Esta foi mais uma: para sobreviver é preciso ter força para resistir, mesmo quando tudo está contra nós e já ninguém acredita num milagre.
Amadora, 28 de Fevereiro de 2009
* Foto retirada da Internet
2 comentários:
Espero que estejas a superar este momento dificil da tua vida, da melhor forma possível... força.
Um grande beijinho**
Felizmente, o pior já passou...
Obrigada! :D
Bjos grandes!
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